4. ECONOMIA 5.6.13

ACABOU O BOLSA PIB
O resultado fraco no desempenho trimestral da economia evidencia a ineficcia da poltica de estmulos do governo.
MARCELO SAKATE
     O consumidor brasileiro, endividado e com o poder de compra corrodo pela inflao, mudou de comportamento nos ltimos meses e reduziu os seus gastos. Os nmeros do comrcio em geral e dos supermercados j vinham apontando para uma retrao nas vendas. A dimenso dessa mudana de atitude ficou clara com a divulgao dos dados do desempenho do produto interno bruto (PIB), no primeiro trimestre. O consumo total das famlias, o item de maior peso na composio do PIB, ficou estagnado e foi determinante para o crescimento fraco da economia nos trs primeiros meses do ano. O PIB teve expanso de apenas 0.6%, frustrando, mais uma vez, as expectativas de acelerao, depois de dois anos de baixo crescimento. Projees dos analistas e do governo apontavam um avano de at 1%.  
     O impacto dos preos altos e tambm da queda de criao de empregos foi visvel no comrcio e no setor de servios em geral, dependentes da disposio dos consumidores para abrir a carteira. Ciente dos prejuzos causados por uma inflao que insiste em oscilar em torno de 6% ao ano, o Banco Central intensificou o movimento de aumento da taxa bsica de juros. A taxa Selic, como  denominada, subiu de 7,5% para 8% ao ano (leia, na prxima pgina, entrevista com o presidente do BC, Alexandre Tombini). 
     Os dados recentes corroboram o diagnstico, feito pelos principais economistas do pas, de esgotamento no modelo baseado nos estmulos recorrentes ao consumo, como as medidas de reduo transitria nos impostos e o barateamento do crdito. O prprio governo parece ter, finalmente, cedido s evidncias e j reconhece a limitao de seus pacotinhos. "No pretendemos anunciar novos estmulos ao consumo. Ele ter de se recuperar a partir do dinamismo nos investimentos", disse, na semana passada, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ao comentar o resultado do PIB. 
     A despeito do discurso, o governo no parece ter desistido de sua poltica de aumento constante nos gastos pblicos. Entre janeiro e abril, as despesas do governo federal subiram 13% em relao ao mesmo perodo de 2012, ou 34 bilhes de reais (excluindo o pagamento de juros). Esse montante a mais de dinheiro circulando na economia exerce presso sobre os preos, jogando lenha na inflao e dificultando ainda mais o trabalho do BC. "Os nmeros do PIB so o resultado de opes erradas de poltica econmica, feitas l atrs, no fim do primeiro mandato do presidente Lula", afirma Srgio Vale, economista-chefe da MB Associados. "O governo abriu mo das reformas estruturais e mais difceis, de longo prazo, capazes de ampliar a produtividade." 
     As Polianas do Planalto procuraram destacar os (poucos) pontos positivos dos resultados do PIB. Um deles  que, ainda que frustrante, o ritmo de crescimento foi ligeiramente superior ao de igual perodo no ano passado. Outro aspecto favorvel foi a retomada nos investimentos, com um avano de 4,6% em relao aos trs meses finais de 2012. Mas foi uma alta na comparao com uma base fraca. Ainda h um longo caminho pela frente antes de os investimentos alcanarem um nvel adequado ao crescimento sustentvel. O governo interveio no cmbio, concedeu desoneraes tributrias e reduziu o preo da eletricidade, mas nem assim os empresrios se dispuseram a ampliar a capacidade produtiva. O cronograma dos investimentos em infraestrutura tambm permanece atrasado. As obras simplesmente no ficam prontas. "O Brasil tem restries na oferta, e  por isso que tem inflao alta com um crescimento baixo", diz Tony Volpon, chefe de pesquisas para mercados emergentes do banco japons Nomura. "Uma maneira de elevar a produtividade seria a abertura maior da economia, com mais exportaes e mais importaes. Mas o governo ataca o problema com mais protecionismo e menos concorrncia.

MAIS UM PIBINHO
O crescimento da economia no primeiro trimestre do ano, de apenas 0,6%, frustrou as expectativas.

Crescimento do PIB (em relao ao trimestre anterior)
1 TRI/12: +0,1%
2 TRI/12: +0,3%
3 TRI/12: +0,3%
4 TRI/12: +0,6%
1 TRI/13: +0,6%

Variao do PIB por setores (1 trimestre de 2013 em relao ao 4 trimestre de 2012)
Agropecuria: +9,7%
Investimentos: +4,6%
Comrcio: +0,6%
Consumo das famlias: +0,1%
Construo civil: -0,1%
Indstria: -0,3%

Fonte IBGE

VAMOS COMBATER A INFLAO
O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, falou a VEJA na ltima quinta-feira, no dia seguinte  deciso de subir a taxa de juros de 7,5% para 8%. Segundo ele,  preciso reduzir a inflao para restaurar a confiana na economia. 

Mesmo com o resultado fraco no PIB, o Banco Central decidiu intensificar o ritmo de aumento dos juros. Por qu? 
O BC tem o compromisso inequvoco com a meta de inflao, de trazer a inflao para baixo e consolid-la em patamares mais baixos. Isso permeou a nossa deciso. Ao mesmo tempo, o BC entende que uma inflao mais baixa ajuda no fortalecimento da confiana na economia brasileira por parte do consumidor, da dona de casa e do empresrio que precisa da estabilidade como condio necessria para fazer seus planos de investimentos e de negcios. 

Quais so os focos de alta na inflao e como combat-los?  
O ndice de inflao ao consumidor tem 365 itens, no adianta entrar nos detalhes. Estamos trabalhando para que a queda dos preos no atacado, como os de alimentos, seja repassada ao consumidor. O nosso objetivo  permitir que a inflao se estabilize em patamares baixos e isso se prolongue e se propague no tempo, no apenas a curto prazo. Nos prximos meses e em 2014, o Brasil j ter uma inflao mais comportada, e queremos que esse processo se consolide. Desejamos uma inflao mais perto da meta, de 4,5%. O combate  inflao preserva o poder de compra do assalariado, protegendo a sua renda, e isso ajuda na propagao sustentvel do consumo. 

A inflao no fica no centro da meta, de 4,5%, desde agosto de 2010. Quando isso voltar a acontecer? 
A inflao esteve bem prxima desse patamar em meados de 2012. Depois, uma combinao de choques, como a quebra de safras, e a valorizao do dlar fizeram esse patamar se elevar. Hoje estamos combatendo a inflao de maneira firme, para faz-la recuar ao centro da meta. Teremos uma inflao bem-comportada nos prximos meses, com declnio a partir do segundo semestre, e isso se prolongar em 2014. Neste ano, a inflao ser mais baixa do que em 2012, que foi de 5,8%. E, em 2014, ser menor do que a deste ano. 

A cotao do dlar est em alta e isso poder exercer uma nova onda de presses sobre a inflao. O BC intervir no cmbio para evitar uma alta mais acentuada do dlar? 
Esse  um movimento global, ocorrido nas ltimas semanas. Acompanhamos esse processo para saber se ele se estabilizar a curto e mdio prazos. O regime de cmbio  flutuante. Mas podemos fazer intervenes nesse mercado, assim como fizemos nos ltimos anos, sempre que haja um excesso de volatilidade ou alguma disfuno. Estamos atentos a essas oscilaes.


